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Torção de Tornozelo em Trilha: Primeiros Socorros e Quando Evacuar

Protocolo RICE passo a passo para torções em trilha. Como imobilizar, quando continuar caminhando e quando pedir resgate.

Marina Campos
9 min de leitura
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Marina Campos

Especialista em Montanhismo

Montanhista e guia de trilhas há 12 anos. Especialista em técnicas de orientação, primeiros socorros e segurança em alta montanha.

Torção de tornozelo é a lesão mais comum em trilhas. Representa cerca de 25% de todas as lesões musculoesqueléticas em atividades ao ar livre, segundo dados da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia . Em terreno irregular, com pedras soltas, raízes e buracos, basta um passo em falso.

Em 2023, uma trilheira torceu o tornozelo no terceiro dia de uma travessia de 5 dias na Serra do Rio do Rastro. Ela continuou caminhando porque “não estava tão ruim”. No dia seguinte, o tornozelo estava o dobro do tamanho e ela não conseguia mais apoiar o pé. O resgate durou 6 horas e ela ficou três meses sem poder fazer trilhas.

A mensagem é clara: saber o que fazer nos primeiros 30 minutos após uma torção pode fazer a diferença entre um incidente menor e uma evacuação complexa.

Anatomia da torção: o que acontece

O tornozelo é uma articulação complexa sustentada por ligamentos — tecidos que conectam osso a osso. A maioria das torções afeta os ligamentos laterais (do lado de fora do pé), que são mais frágeis.

Quando você “vira o pé”, os ligamentos são esticados além do limite. O resultado pode ser:

  • Grau 1 (entorse leve): microlesões nos ligamentos, sem rompimento
  • Grau 2 (entorse moderada): rompimento parcial dos ligamentos
  • Grau 3 (entorse grave): rompimento completo do ligamento

No momento da torção, você geralmente sente:

  • Dor aguda e imediata
  • Sensação de “estalo” ou “tranco”
  • Dificuldade para apoiar o pé

Protocolo RICE: tratamento imediato

O protocolo RICE (Rest, Ice, Compression, Elevation) é o padrão ouro para tratamento de torções nas primeiras 48 horas. É recomendado pela SBOT e amplamente aceito pela comunidade ortopédica internacional .

R — Rest (Repouso)

Pare imediatamente de apoiar o pé.

Não tente “caminhar para ver se passa”. Cada passo em um tornozelo lesionado pode piorar a lesão. Sente-se, deite-se, use um bastão ou muleta improvisada.

  • Se você está em grupo: alguém deve buscar ajuda ou equipamento de suporte
  • Se está sozinho: avalie se pode ficar no local ou se precisa se mover para um local mais seguro

I — Ice (Gelo)

Aplique frio por 15-20 minutos a cada 2-3 horas.

O frio reduz inflamação, dor e sangramento interno no local da lesão.

No campo:

  • Água de riacho fria (imobilize o pé por 10-15 minutos na água)
  • Toalha molhada em água fria
  • Compressa de neve (se disponível)
  • Nunca aplique gelo diretamente na pele — envolva em pano para evitar queimaduras

C — Compression (Compressão)

Envolva o tornozelo com bandagem elástica.

A compressão controla o inchaço e oferece suporte. A técnica correta é fundamental:

  1. Comece pelos dedos (parte distal) e vá subindo em direção à panturrilha
  2. A bandagem deve ficar firme, mas não apertada
  3. Deixe os dedos visíveis — se ficarem roxos ou dormentes, está muito apertado
  4. Sobreponda cada volta da bandagem pela metade da volta anterior

Se você não tem bandagem elástica, improvisações possíveis:

  • Pedaço de tecido ou camisa
  • Fita adesiva (mas evite colocar direto na pele — pode machucar ao remover)
  • Ataduras de gaze

E — Elevation (Elevação)

Mantenha o tornozelo acima do nível do coração.

A elevação usa a gravidade para reduzir o inchaço. Deite-se e coloque o pé sobre uma mochila, travesseiro improvisado ou tronco. O ideal é manter elevado o máximo possível nas primeiras 24 horas.

O que NÃO fazer

Erros comuns que pioram a lesão:

❌ Não aplique calor nas primeiras 48 horas

Calor aumenta o fluxo sanguíneo e piora o inchaço. Bolsas de água quente, pomadas com efeito térmico e imersão em água quente são contraindicadas no início.

❌ Não massajeie o local

Massagem pode aumentar o sangramento interno e a inflamação. Deixe o local em paz.

❌ Não tome anti-inflamatórios imediatamente

Estudos recentes sugerem que anti-inflamatórios nos primeiros dias podem atrasar a cicatrização dos ligamentos. Use analgésicos simples (paracetamol, dipirona) para dor, e reserve ibuprofeno para após as primeiras 48 horas se necessário.

❌ Não tente “andar para melhorar”

Movimento precoce em lesões graves pode transformar uma entorse de grau 2 em grau 3.

Avaliando a gravidade: posso continuar ou preciso de resgate?

Essa é a pergunta crítica em trilha. Aqui está um guia prático:

Sinais de torção LEVE (provavelmente pode continuar com cuidado)

  • Dor localizada, mas consegue apoiar o pé com desconforto
  • Pouco ou nenhum inchaço nos primeiros 30 minutos
  • Consegue movimentar o pé em todas as direções (com dor, mas sem bloqueio)
  • Não há deformidade visível

Ação: Aplique RICE, use bandagem de suporte, reduza a carga (use bastão, distribua peso da mochila para outros), prossiga com cautela.

Sinais de torção MODERADA (avaliar evacuação)

  • Dor intensa ao tentar apoiar o pé
  • Inchaço rápido e visível
  • Roxo ou equimose ao redor do tornozelo
  • Dificuldade para mover o pé

Ação: Aplique RICE, imobilize, não force apoio. Se você está perto da saída (menos de 2-3 km de terreno fácil), pode tentar sair com ajuda de bastão ou apoio de companheiros. Se está em terreno difícil ou distante, considere evacuação.

Sinais de torção GRAVE ou possível fratura (evacuação necessária)

  • Não consegue apoiar o pé de jeito nenhum (sinal de Ottawa positivo — ver abaixo)
  • Deformidade visível (osso fora do lugar, angulação anormal)
  • Inchaço massivo e imediato
  • Dormência ou formigamento no pé
  • Dor óssea direta ao palpar a fíbula (osso lateral da perna) ou tornozelo

Ação: Imobilize, não tente caminhar, acione resgate. Em parques nacionais do ICMBio , a equipe do parque pode coordenar resgate. Fora de parques, ligue para o SAMU 192 ou bombeiros (193).

Regra de Ottawa: quando suspeitar de fratura

A “Regra de Ottawa para o Tornozelo” é um critério médico usado para determinar se uma radiografia é necessária. No campo, você pode usar uma versão simplificada:

Suspeite de fratura se houver dor óssea em:

  • Parte posterior das últimas 6 cm da fíbula (osso lateral do tornozelo)
  • Parte posterior das últimas 6 cm da tíbia (osso medial do tornozelo)
  • Base do 5º metatarsiano (lado de fora do pé)
  • Osso navicular (parte interna média do pé)

E se a pessoa NÃO consegue dar 4 passos (com ou sem dor) imediatamente após a lesão e na avaliação.

Se qualquer um desses critérios estiver presente, trate como possível fratura: imobilize completamente e evacue.

Imobilização improvisada em trilha

Se você precisa imobilizar e não tem equipamento específico:

Tipó com bandagem triangular

Uma bandagem triangular (ou camisa dobrada) pode criar um tipó improvisado:

  1. Dobre a bandagem em triângulo
  2. Coloque o vértice sob o calcanhar
  3. Traga as pontas para cima, envolvendo o pé
  4. Amarre ao redor do tornozelo e da panturrilha
  5. Use bastões ou galhos firmes como imobilizadores laterais se necessário

Tala com material disponível

  • Bastões de caminhada — podem ser fixados ao lado da perna com fita ou tecido
  • Mochila ou carpete de barraca — enrolados ao redor do pé e perna
  • Garrafas PET cheias de areia — servem como imobilizadores laterais

O objetivo é impedir movimento lateral do tornozelo, mantendo o pé em posição neutra (ângulo de 90° em relação à perna).

Recuperação: o que esperar

  • Grau 1: 1-3 semanas para retorno às atividades normais
  • Grau 2: 3-6 semanas
  • Grau 3: 6-12 semanas, pode requerer cirurgia

O retorno precoce a trilhas aumenta drasticamente o risco de nova torção. Um tornozelo que já torceu uma vez tem 40% mais chance de torcer novamente se não for reabilitado corretamente.

Após a fase aguda (48-72 horas), a reabilitação deve incluir:

  • Exercícios de propriocepção (equilíbrio em superfície instável)
  • Fortalecimento de panturrilha e músculos do pé
  • Uso de tornozeleira de suporte em atividades de risco

Prevenção: como evitar torções em trilha

Calçados adequados

  • Botas de cano médio ou alto — oferecem mais suporte lateral que tênis
  • Solado com bom agarre — reduz escorregões
  • Amortecimento adequado — absorve impacto em terreno irregular

A Decathlon e outras lojas especializadas oferecem botas de trilha a partir de R$ 200-300. Um bom par de botas é investimento mais barato que uma cirurgia.

Bastões de caminhada

Estudos mostram que bastões de caminhada reduzem a carga nos joelhos e tornozelos em até 30% em descidas. Eles também melhoram o equilíbrio em terreno irregular.

Atenção ao terreno

  • Reduza a velocidade em trechos técnicos
  • Olhe 2-3 metros à frente, não só os próprios pés
  • Teste pedras soltas antes de pisar
  • Evite conversar e olhar o celular enquanto caminha em terreno difícil

Fortalecimento preventivo

Exercícios simples que podem ser feitos em casa:

  • Elevação de calcanhar (fortalece panturrilha)
  • Equilíbrio em uma perna (melhora propriocepção)
  • Pular corda (fortalece tornozelos e melhora coordenação)

Kit de primeiros socorros para torções

Itens específicos para incluir no seu kit:

  • Bandagem elástica de 7,5cm (1-2 unidades) — R$ 15-25 cada
  • Fita adesiva esportiva (athletic tape) — para imobilização e suporte
  • Bandagem triangular — para tipó improvisado
  • Pomada para contusões (arnica ou similar) — para uso após as primeiras 48 horas
  • Analgésicos (paracetamol ou dipirona) — para controle de dor

Para um guia completo de itens de emergência, consulte nosso kit de primeiros socorros para camping. Se você está planejando trilhas noturnas, o risco de torção aumenta significativamente — a visibilidade reduzida torna o terreno mais traiçoeiro. E para organizar sua mochila de forma que o kit de primeiros socorros fique acessível, nosso guia pode ajudar.

Referencias

Fontes consultadas

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